Em tempo de fake news, cuidado com as falsas receitas

Por Luciana Lima

Se a propaganda é a alma do negócio, cheguei à conclusão de que o atendimento é o corpo. Sutilezas no trato com o cliente são capazes de conquistar para sempre ou arruinar de vez qualquer empreendimento. Vai além daquele velho ditado rezando que “o cliente tem sempre razão”. O que se busca é, principalmente, sinceridade e empatia ao entrar em qualquer loja.

Esse desejo bateu forte em uma tarde quente e seca que pedia um cafezinho, uma pausa para assentar os assuntos na cabeça e continuar o dia de trabalho com uma dose extra de cafeína e pensamentos novos.

A confeitaria, no estilo mineiro, se esmerou na decoração rústica, nos paninhos e flores sobre a mesa, ou seja, um conforto que remetia os saudosos clientes aos “causos” e quitandas de Minas. A experiência, no entanto, não foi das melhores.

Na vitrine, salgados diversos, bolos, doces e inúmeras formas de café. Me animei com a empada de camarão. Não existe mineiro que não goste do que vem do mar. É quase um recalque. Pedi a empada, um café coado e me aconcheguei na mesa da varanda em meio a outras mesas com clientes absortos pelas telas de celulares.

Na primeira mordida, nada, nem uma perninha do crustáceo mais cobiçado em terras das gerais. Na segunda mordida, também nada. Pensei: “Falta de sorte. Posso dar mais uma chance”. Infelizmente, cheguei ao fim e nada!

A empada de camarão, sem camarão, acabou me remetendo à lembrança de uma tia, que se orgulhava de ter o caderno de receitas falsas mais completo de toda Minas Gerais. Ela era uma salgadeira conhecida na cidade, considerada uma das melhores, mas tinha lá seus truques. Era falso camarão, falso requeijão, falsa baba de moça. Não havia nenhum risco de sua casquinha de siri causar alergia aos intolerantes ao crustáceo. Seu caviar era feito de sagu, coisa que já vi alguns chefes famosos reproduzirem em renomados restaurantes. Em outras palavras, o caderno dela era um compilado de fake recipes, digno de ser defenestrado por uma campanha semelhante à atual onda de combate às fake news.

Odiava a enganação, como também não suportei a que eu estava submetida naquele momento. Se a empada era de camarão – estava escrito na plaquinha de identificação da vitrine –, não era plausível me contentar com isso. Além disso, o salgado custava R$ 9,00, o suficiente para justificar minha crença de que encontraria o recheio, mesmo que ele tivesse sido pescado a 1.300 quilômetros daquela lanchonete no Planalto Central do Brasil.

Levantei-me para pagar a conta e não me furtei de deixar explícita minha insatisfação. Discretamente, avisei, na esperança de que estaria contribuindo para a melhoria do serviço: “Olha, a empada de camarão não tinha um camarão sequer”. A resposta da gerente que estava no caixa, no entanto, não foi nada animadora: “É que é uma empada com creme com sabor de camarão”.

Então, questionei: “Não seria mais correto, então, trocar o nome da empada? Que tal ‘empada de creme sabor camarão’?”. Pensei que minha sugestão não era nada inadequada diante do que se espera da honestidade no trato de consumo. No entanto, ela foi hermética: “É nosso salgado mais elogiado”.

Enfim, percebi que não adiantava. A confeitaria mineira, com todos os seus paninhos, jarrinhos e flores, que me fez lembrar de minha tia, seu livro de receitas e as histórias engraçadas envolvendo seu nome, perdeu uma grande cliente. Infelizmente, isso não é notícia falsa.

 

Fonte: Revista Varejo SA http://revistavarejosa.com.br/entrei-loja/em-tempo-de-fake-news-cuidado-com-as-falsas-receitas/